Nada mais importa


Olho no relógio. Há muito tempo o combinado já passou. A angústia toma conta da situação. Expectativa torna-se frustração e é inevitável pensar em abandono. Ao redor, o mundo todo sabe da humilhação, como se um giroscópio estivesse aceso sobre minha cabeça. Menosprezo pode ser uma boa classificação. Tudo o que foi escrito, dito, jurado, tudo foi mentira. Na porta do cinema, na mesa do restaurante, no café da esquina, onde for, a cena é a mesma: solidão, relógio, ausência, vergonha, raiva-ira-ódio, #sumadinhavida! Ponto. Volta tudo! Nada mais importa. Ela chegou.

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Quero apenas o que é espontâneo

© daniel perez

Sim! 51 se aproximando. Aniversários costumam vir acompanhados de uma pergunta: o que você quer? Ganhar… fazer… comer… beber. Apesar de ser conhecido como amável e pacato, costumo responder de forma curta e seca: nada! Porque desde muito tempo não dou muita bola pro meu aniversário. Talvez para não reconhecer que mais um ano passou da mesma forma, prefiro fazer de conta que não aconteceu. Porém, este ano decidi responder de forma diferente: quero o que é espontâneo. Quero ser lembrado por quem nunca se esquece. Abraçado com sinceridade. Não ganhar bom dia por formalidade. Quero comer o que é gostoso, não o caro. Quero ir onde é agradável, não onde é moda. Quero o que me apraz, não festa. Afeto em vez de cortesia. Quero cor, mesmo que seja preto. Criar, em vez de inventar. Quero a pele queimada pelo sol, as marcas da idade, o sorriso desgastado. Quero a simplicidade. Sou caipira, nasci pelado, no quarto da frente da casa pequena onde moravam meus pais. 
Aprendi a apreciar o caro, quando é bom. Porém, preservo quem sou de verdade, minha origem, minha essência. Ser eu mesmo trouxe-me até aqui. O que aprendi e vou aprender é pra melhorar quem sou, não mudar o que sou. Feliz aniversário pra mim.

Abra-se para o novo ou torne-se um velho fechado

© Daniel Perez

É assim que é! O tempo não para, o mundo gira, a idade passa. Um belo dia a gente se surpreende decretando a frase “na minha época era muito melhor”. Pronto! Está fechado o cadeado! Esse é o momento em que nos impomos não aceitar as novidades. Avalie: a música que tocava no rádio na minha adolescência era tão boa que continua sendo a mais tocada nos players online até hoje. 

Façamos então uma revisão do que acabo de dizer: música boa que continua tocando 40 anos depois não “era boa”, mas “é boa” porque atravessa gerações e sempre será boa. As mídias vão ficando obsoletas, mas o conteúdo permanece. Aliás tem música boa hoje também. E como tem!
Apliquemos este conceito a várias outras coisas: culinária, arte, literatura. As coisas boas atravessam as décadas e absorvem o que elas têm a oferecer. Não há conflito de gerações, mas geração de conflitos como eu já disse uma vez.

Aceite: tudo pode e deve ser renovado sempre, a começar pela própria mente, para experimentar o que há de melhor. Até na sabedoria da Bíblia isso está escrito com relação ao que Deus nos reserva (Rm 12). 

É impossível não envelhecer. Mas o nosso conteúdo tem que estar atualizado. O mundo está no presente. Ele é! O que passou virou experiência para ajudar-nos a desfrutar melhor as novidades. O antigo que persiste ainda é atual. Destrave-se!

A CHAVE DO AMOR

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Das minhas experiências que vivi sobre amor, não há muita coisa que mereça ser usada como conselho. Até porque o amor é peculiar a cada pessoa em intensidade, estilo, personalidade, com a singularidade de uma obra de arte. Conselho de amor não existe, como não existem técnicas de amor. Não posso ensinar o que não sei. Não conheço o amor alheio. Também, não aceito conselhos de amor. O meu é meu e o seu, seu. Da mesma maneira, não se ama mais nem menos. Não há maior ou menor. Não tem medida. Amor, para mim, não está dentro. Porque se não tem medida, também não tem limite. Amor não sai de dentro da gente e vai pra outra pessoa. Ele envolve, permeia corpo, alma e espírito e não se dissolve. Se amo alguém, amo. Se amo mais alguém, outra pessoa, amo também. E as formas de amar? (Fileo, eros e ágape). Aí vai minha cutucada nos teóricos: amor é amor. Se não for incondicional, não é amor. Pode vir acompanhado de paternidade, fraternidade, desejos físicos ou metafísicos, de fé ou de materialismo. Amor é amor. Não quero ser simplista, nem purista. Mas defendo que o amor existe e ponto. Você não aponta e dispara, tipo cupido. Amor é abraçar sem tocar e nunca mais soltar. Raiva é sentimento. Frustração, tristeza, alegria são coisas que a gente sente. Amor… Não. Amor existe e coexiste com mais amor. Não se divide. Multiplica-se. Amamos o primogênito, depois amamos o segundo filho também. Não tiramos um pouco de amor de um para dar a outro. Amor não cansa nem descansa. Não tem uma chave on-off que se possa desligar e dizer “não te amo mais”. No máximo é possível entender que nunca amou.

De tudo um pouco

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©danielperez

Quando era criança via meu pai trabalhando e queria ser como ele: bom naquilo que faz! Com o passar dos anos percebi uma forte tendência ao aprofundamento nas especializações em todas as áreas. Não obstante ser bom, também precisava ser especialista. Em algumas áreas, como a medicina por exemplo, isso acentua-se até os dias de hoje. Em outras, o processo inverteu-se: na busca da ascensão meteórica de suas carreiras os profissionais passaram a exercer funções multitarefas. Questões do tipo “até que ponto isso é saudável?” Eram sufocadas pelo aparecimento de uma galera nascida nas entranhas da tecnologia e o desespero crescente por produtividade nas empresas. Porém, onde abundam energia, ambição  e conhecimento, por vezes minguam a experiência e sentimento de grupo, a subordinação e a ética. Outras vezes funciona bem. Como saber? Uma coisa é certa: dedicação, sabedoria, disposição e interesse no trabalho são sempre bem recebidos.

Se já não é o bastante ser bom naquilo que faz e se não é possível ser o melhor em tudo, talvez reste-nos procurar fazer de tudo um pouco. Tudo sempre bem feito.

Sobrevivi

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Nasci no Brasil um ano depois do golpe militar. Estudei em colégio particular, depois nos estaduais. Tive aulas de Educação moral e cívica (era obrigatório). A despeito da ditadura, cheguei à maioridade e, pasmem, servi ao Exército Brasileiro no ano da abertura política e estava de prontidão no dia das Diretas Já! Tornei-me comunista e meu primeiro trabalho de filosofia na faculdade foi baseado no manifesto do Partido. Depois socialista, social-democrata, até concluir que nenhum deles se dá ao respeito e, portanto, não merecem o meu respeito. Vi presidente morrer sem assumir, presidente assumir sem querer, presidente ser presidente sem merecer e presidente cair sem saber o porquê. Vi presidente que não gostava do cheiro de gente. Preferia os cavalos. Já vi cara-pintada, cara-de-pau e cara-lavada. Isso tudo se ficarmos no primeiro escalão. Vi um ministro acertar o rumo da economia e virar presidente.
Virou o século e a maior frustração da humanidade talvez tenha sido o não-bug-do-milênio. A minha foi ver que os políticos “trabalhadores” valem tanto quanto aqueles a quem eles próprios apedrejaram.
Era pra ser um texto divertido, mas não deu. Não posso julgar a ninguém. Não sou cego, contudo. Porém, do alto dos meus cinquenta anos (sinto-me ridículo com essa frase), posso assegurar que cada um luta pela própria sobrevivência. A vida é um amontoado de relações políticas: na escola, no trabalho, na rua, na família. Já vi dois impeachments e estou aqui.

Sobrevivi.